Ao pesquisar mais sobre o autor desse texto, li que ele foi muito importante para a história da arquitetura na época da popularização do movimento moderno. Ele possuía vários projetos interessantes envolvendo não somente a eficiência dos edifícios, como a maioria dos modernos apaixonados pela ideia de progresso e eficiência, mas pensava principalmente em como as interações entre seres humanos e construções se dá.
Essa preocupação com o envolvimento humano se relaciona muito com os conceitos de Herman Hertzberger, que em seu livro Lições de Arquitetura também ressalta muito a importância do pensamento envolvendo as pessoas e não somente as partes materiais. Mas voltarei a falar disso depois. Agora falarei de fato do texto lido.
Em Sistemas gerando sistemas, o arquiteto deixa clara a diferença entre sistema como um todo e sistema gerador. Inclusive uma coisa muito boa sobre o texto é o quão didático Alexander consegue ser, o que faz sentido, pois ele lecionou por uns anos. Voltando ao foco, já no começo do texto ele introduz as principais ideias de sistema como um todo e sistema gerador, diferenciando os dois.
SISTEMA COMO UM TODO:
Segundo o autor, um sistema como um todo é produto de uma interação entre diversas partes organizadas de tal forma a formar um todo, e que esse sistema não é um objeto, mas uma maneira de olhar para um objeto. Para isso, ele usa muito o termo de fenômeno ou propriedade holística, que é basicamente um conjunto de partes que juntas formam um todo, mas que separadas perdem o sentido.
Para exemplificar isso, ele dá alguns exemplos, sendo eles a chama de uma vela (produto de interações físico-químicas entre o pavio, a parafina e o ar), a força de uma corda (que é formada por vários fios fracos fazendo um forte), o input e output de um computador (que recebem e devolvem informações desempenhando alguma utilidade), entre outros.
Alexander também enfatiza que para que um sistema como um todo exista de fato, ele precisa principalmente de estabilidade, e que isso é uma característica essencial de todos os sistemas desse tipo. E que essa estabilidade só pode ser entendida como um produto das partes, ou seja, uma propriedade holísticas. "As propriedades mais importantes de qualquer coisa são aquelas que lidam com a sua estabilidade.
"A noção de ‘todo’ refere-se apenas à amplitude da visão, não à inclusão de detalhes: ela ainda é abstrata." Nesse trecho, o arquiteto afirma que enxergar algo como um sistema não passa de uma abstração, de algo complicado que ainda não entendemos por completo. E ele também alerta que chamar algo de sistema é fácil, e que isso não indica que conseguimos ver a coisa em sua totalidade.
Ele diz que ao nos depararmos com algo muito complexo, além da nossa capacidade de compreensão, temos quase que instintivamente a noção de que aquilo é um sistema, porém essa afirmação só pode ser feita após analisar com cautela as partes envolvendo aquilo, e constatar que realmente envolve um fenômeno holístico. "Assim, há uma segunda lição a ser aprendida. A primeira lição dizia: não chame algo de sistema a menos que você possa identificar o sistema abstrato sobre o qual você está falando. A segunda lição diz: aprenda a primeira lição, mas não deixe que isso o impeça de fazer abstrações fáceis."
Para encerrar sua explicação sobre sistema como um todo, o autor diz que o ponto de vista sistêmico não é neutro, e que criar essa consciência mudará nossa visão do mundo, pois passaremos a perceber as diversas interações que acontecem o tempo todo em todos os lugares que geram algo, geram um sistema como um todo.
SISTEMA GERADOR:
Segundo Alexander, um sistema gerador nada menos é que aquele que gera o sistema como um todo. É um conjunto de partes e regras que é capaz de gerar muitas coisas. E nessa constatação ele define regras como projetadas para gerar coisas.
De exemplo, ele cita um sistema de triângulos que juntos formam um quadrado, e que pode ter infinitas combinações, porém a maioria é descartada pois não atende aos requisitos de formar um quadrado (confesso que nessa parte específica das combinações descartáveis eu não entendi muito bem qual o ponto dele). Também fala do sistema de linguagem, em que as letras são partes de uma palavra mas uma palavra também é parte de uma frase (pesquisando eu vi que essa definição do sistema de linguagem influenciou as ciências da computação, e que o homem que criou a Wikipédia se apoiou na pesquisa do autor do texto sobre isso). Além do que ele diz ser o mais interessante, que é o sistema genético. Por fim, ele cita os sistemas de construção, com vigas blocos e estruturas que juntas formam um edifício.
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Depois de explicar devidamente o que são cada um dos sistemas apresentados, ele diz que é preciso criar sistemas geradores para poder ter sistemas como um todo. A relação entre os dois é bem simples; de acordo com o autor, se algo tem alguma propriedade holística (interação entre as partes), só pode ter sido criado por um sistema gerador.
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O HOMEM COMO DESIGNER:
No fim do texto, Alexander fala sobre a importância do designer no planejamento de objetos e edifícios. E que sempre estamos preocupados com criar coisas que funcionam como totalidades, porém ele afirma que deveríamos criar sistemas geradores.
Ele diz que a maioria das propriedades de um edifício ou cidade são holísticas. E afirma que devemos criar sistemas geradores que criem por conta própria essas propriedades.
Essa, na minha concepção, é a parte do texto que mais se relaciona com os conceitos de Hertzberger, pois os dois arquitetos apoiam a ideia de que o designer não deve criar algo com o intuito de determinar e ditar o que será feito ou para que será usado seu projeto, mas sim como uma oportunidade de interpretação e adaptação de quem será afetado por tal projeto, como um morador de um edifício, um cidadão de alguma cidade ou um estudante de alguma escola.
"Este é um passo radical na concepção do design. A maioria dos designers hoje se considera designers de objetos. Se seguirmos o argumento apresentado aqui, chegaremos a uma conclusão muito diferente. Para criar objetos com propriedades holísticas complexas, é necessário inventar sistemas geradores que gerem objetos com as propriedades holísticas necessárias. O designer se torna um designer de sistemas geradores - cada um capaz de gerar muitos objetos - ao invés de um designer de objetos individuais."
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Para terminar o texto, Christopher Alexander alerta o leitor; ele retoma o exemplo do sistema de construção que deu anteriormente, que é um conjunto de partes com regras específicas de organização, mas nem todo sistema gerador cria objetos com propriedades holísticas valiosas. Ele critica em todo seu trabalho a visão funcionalista dos modernistas, que visavam apenas à eficiência das construções, e nesse texto ele reafirma sua crítica, quando escreve que os edifícios precisam de um novo modo de construção, que leve em consideração a parte social e humana como um todo. Num edifício em bom funcionamento, em sua visão, as pessoas e a construção formam um todo, um verdadeiro fenômeno holístico. Que também se relaciona com Hertzberger, que valoriza o edifício em funcionamento com as pessoas, não apenas cômodos frios, vazios e sem vida.
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