No drops Objetos feito em sala, fomos induzidos a refletir sobre a origem dos objetos no nosso cotidiano, com a cena do filme 2001: uma odisseia no espaço, onde o "primeiro objeto" que surge é utilizado como arma, forma de impor superioridade através da violência. Nessa discussão, ficamos com o questionamento; nós dominamos os objetos ou somos dominados por eles?
Essa não é uma discussão simples e nem linear, pois ao longo da aula foi possível perceber que os objetos (assim como a arquitetura) influenciam diretamente o comportamento humano, pela sua forma função e intenção, que pode ser tanto responsabilidade do artista ou inventor, quanto da criatividade do usuário, que é livre pra sempre interpretar como lhe convém, o objeto que tem em mãos.
Depois a discussão caminhou para o primeiro texto lido, que é Animação Cultural, de Vilém Flusser, no qual a ficção trata de um mundo onde objetos tem "vida" e querem seus direitos objetivos, o que seria uma inversão da realidade em que vivemos. Além da temática de quem domina quem, que também é proposta nesse texto, a leitura traz a discussão sobre hierarquia dos objetos, e fomos convidados a refletir se esse conceito de fato existe e pode ser aplicado à nossa realidade.
Nessa linha de raciocínio, voltamos na odisseia no espaço, onde fica a dúvida se o macaco da cena só se sobressaiu por ter descoberto uma arma, levando ao pensamento de que uma arma é o objeto mais importante, pensamento esse muito polêmico e questionável. Também pensamos sobre a forma dos objetos, representada pela personagem mesa redonda, que se declara o objeto maioral por conseguir reunir todos os outros objetos de forma igualitária, propondo então de ser a líder dos objetos. Essa constatação da mesa nos leva a pensar em como a forma do objeto afeta diretamente seu uso, e consequentemente, afeta também o ser humano enquanto usuário.
Depois, lemos em sala o conto A ficção como cesta: Uma Teoria, de Ursula K. Le Guin, em que a autora traz uma proposta quase que oposta à do filme e do texto de Flusser, na qual ela nos convida a pensar na história dos objetos por um outro olhar, não dominador, mas de cuidado, que é através da figura da cesta. Essa discussão é muito interessante pois podemos perceber o viés masculino que existe nas histórias da humidade, em que apenas contam da lança usada para matar o mamute, sendo que a maioria dos seres humanos na época vivia de agricultura, e para tal atividade, são necessários cestos para carregar os grãos e verduras cultivados, além dos cestos carregarem com segurança as crianças enquanto seus pais colhiam os produtos agrícolas, porém essa narrativa pacata chama muito menos a atenção do público das ficções do que a história do herói que mata a fera e retorna pra casa com uns pedaços de carne (carregados onde, inclusive? pois é).
Pessoalmente gostei muito desse texto e de discutir sobre ele em sala, já que eu sempre tive uma certa resistência com a ficção científica, exatamente pelo motivo que a autora ressalta, da masculinidade envolvendo as narrativas, e foi muito interessante relacionar esse meu pensamento com os objetos, e mais ainda, com a arquitetura em si. Como um ambiente criado pode acolher ao invés de intimidar? E qual o papel do arquiteto na sensação que o usuário tem ao interagir com determinado espaço?
Podemos também relacionar toda essa discussão com os conceitos de Hertzberger, pois o autor também propõe que passemos a perceber a arquitetura e o papel do arquiteto com outros olhos, e ele nos mostra que o arquiteto não deve ser o ditador do espaço, assim como o objeto não deve ser o ditador de seu uso. E vimos que o jeito como o espaço pode ser utilizado e a interpretação que cada um terá sobre o projeto pode ser influenciada por incentivos, mas deve sempre ter espaço para novos usos e interpretações.
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